segunda-feira, 11 de dezembro de 2017




quero escrever poema
que não apresente trucagens
para prender a atenção
dos leitores.

poema que não tenha por finalidade
impressionar ninguém
ou quase ninguém.

poema econômico em quase tudo,
só com o essencial, sem enfeites,
onde palavra alguma seja desperdiçada.
poema que pareça enfadonho
aos leitores menos avisados.

poema para ser apenas lido
e não declamado.
que não faça sucesso no facebook
nem em saraus.
e não careça de comentários.

poema que se apunhale
e desse sangue jorrado
gere a si mesmo sendo outro poema
sem nenhuma palavra trocada.

poema que nem seja poema,
apenas um parto para outros poemas
que sejam novos partos, curtos e raros.



a fazenda-criança

entre agreste e sertão,
adorava ser grão.
menina, apenas;
brincando na fazenda-criança
de meu tio-avô,
nas férias.

as rãs pulavam do interior
de uma boca imensa.
eu corria pro mato.
me aliviava no mato mesmo.
as rãs viviam em locais frios
e gostavam dos azulejos
e daquela boca imensa.
por isso pulavam de seus lábios
quando a gente chegava perto.

a fazenda ficava à beira da estrada,
e se alguém passasse com fome ou sede
e pedisse algo,
era servido um lanche ou refeição,
dependendo do horário e da ocasião.
eu dormia em colchão de palha
e minha avó cantava canções
pras palavras dormirem
dentro de minhas pálpebras.

subia em árvores, muros e janelas.
me sentia pássaro andando no muro do curral ou quando me pendurava em árvores, bem lá no alto.

muitas vezes me deparei com cobras de vários tipos.
a maior foi uma jiboia e a menor uma coral.
me deparei com cascavéis e cobras d'agua.
aquela região tinha muitas delas.
também havia camaleões, lagartos,
além de famílias de sapos e rãs.
uma vez confundi um sapo cururu
com uma pedra e quase pisei.
foi um susto pra mim e pra ele.

a gente se reunia para assistir tv na sala, inclusive a pessoa que estivesse de passagem.
certa vez, entrou um besouro filhote
no meu ouvido.
comecei a ficar incomodada
e falei com minha avó.
ela duvidou. eu insisti.
a lavadeira que assistia tv com a gente pediu que eu a acompanhasse até a cozinha.
foram juntos os primos e meus avós.
ela encheu a boca de água e cuspiu no meu ouvido.
depois virou minha cabeça de lado
e o besouro saiu, vivo ainda.

brincava no barro após a chuva.
e até de baixo dela.
a chinela cantava.

adorava as estórias que o meu avô contava; e também dos doces da vó, e das brincadeiras dos primos; das visitas as casas de parentes e amigos, que nos recebiam com café passado na hora, bolacha e pão doce.
comia tanto que a barriga doía.

nos dias de feira era uma festa.
não faltava o rosário de coco.
a gente andava de lotação que era uma kombi ou numa rural junto com a feira, as pessoas e os bichos.

algumas vezes dormia na rede
e embaixo dela amanhecia uma poça que não podia ser a minha.
aliás, várias poças, porque o mistério também acontecia com meus primos.
a chinela cantava novamente.

quando eu ficava doente me levavam na rezadeira. tudo era mau olhado.
meu avô sabia muitas receitas para dor de cabeça e de barriga, espinha, verruga e outros. devia ter escrito os seus conhecimentos. agora estão perdidos no tempo.

porém ele tinha uma mania curiosa. gostava de esconder os doces e bolachas que comprava. só os dividia com os seus netos prediletos. eu era a preferida. minha avó brigava com ele. dizia que era falta de educação e fazia ele dividir com todos. ele ficava chateado, mas não entrava em atrito com a coroa. ela sempre mandou em casa.

meu avô não gostava dos netos que matavam passarinho. brigava muito. ele amava os bichinhos.

eu gostava, junto com as primas, de brincar de escola. só tinha um problema, todas queriam ser a professora. a escola não tinha aluno. sempre dava briga.

e agora, mais de 30 anos depois,
"essa criança ainda brinca nessa roda"
e desperta nuvem sem deixar de ser pipa.




éramos muito jovens.
eu tinha terminado com ela.
morávamos numa kitnet.
voltei em casa pra pegar
minhas coisas.
era tarde da noite.
acabei ficando pra dormir.
ela também. e me disse 
que deveríamos continuar,
pelo menos pra dividir as contas
e pra que ela não voltasse 
pra casa da mãe. 
eu disse que não dava. 
não aguentava mais as paranoias.
acendi um back.
ela pediu pra dar um-dois.
eu deixei.
ela começou a chorar.
eu deitei.
ela ficou acordada.
eu também. 
ela acabou deitando
e continuou chorando.
fiquei preocupado.
vai saber o que essa
mina é capaz de fazer!
de repente, ela levantou
e foi pra cozinha. 
ouvi um barulho
e depois outro.
fui ver o que tinha acontecido. 
ela tinha tomado 
uma cartela inteira de doflex.
não acreditei.
se ela queria se matar, 
por que não cortou os pulsos?
no outro dia,
acordei todo dolorido. 
não tinha um doflex pra tomar.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017




"depois a colocou no meu colo e disse que era perfeita"

ela tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço. poderia sufocá-la quando passasse no canal vaginal.
a médica informou que não teria problema. havia muita água na placenta.

a parte mais engraçada ficaria com o anestesista.

a bolsa estourou de repente, em botafogo, na casa da minha mãe. meu marido estava em minas. liguei pra médica, que morava em niterói. disse que ligaria pra equipe dela. se encontrariam no hospital, também em botafogo. eu fui pro hospital. a plantonista deu todas as informações pra ela.
eu tinha ouvido num programa de tv que não se deve ficar deitada porque a força da gravidade ajuda na saída do bebê.
conforme eu ia andando no corredor o canal vaginal ia dilatando-se.
quando a plantonista foi ver, já tinha seis centímetros de diâmetro.

as contrações é que causam dor.
e uma dor absurda.

comecei a gritar pelo anestesista.
a gritar alto, a berrar mesmo.
a médica autorizou a plantonista a fazer o parto. me preparei.
fizeram uma lavagem intestinal e me depilaram toda.
continuei sentindo dor e chamando pelo anestesista.
começou a sair sangue.
voltei a chamar pelo anestesista; e agora a xingar.
quando cheguei na sala de parto chegaram também a minha médica e a equipe dela.
ela me acalmou e avisou que iria fazer o parto.

e a porra do anestesista?!

ele apareceu tentando me tranquilizar. avisou que só poderia dar a anestesia quando o corpo expulsasse o bebê pra fora.
indicou pra eu fazer força, que ele iria pressionar a minha barriga.
pouco tempo depois minha menina veio a nascer.
a médica disse que era cabeludinha e me pediu que fizesse mais força
pra que saísse logo
porque a bebê estava enrolada no cordão umbilical.

e finalmente a porra da anestesia.


a médica costurou o corte entre a vagina e o ânus que ela precisou fazer.
não senti o corte, só a costura.
depois a colocou no meu colo e disse que era perfeita.
foi emocionante.
nem precisou ir pra incubadora, foi direto pro berçário.
em seguida, outro perrengue, o da amamentação.
o primeiro leite é o mais importante.
e foi assim que aurora deu com a cara no mundo, ao meio dia, de olhos fechados aos curiosos.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017




"vamos chamar o vento"
pra levar embora essa dor
e que a cor daqueles olhos
não fique
e essa pele
não sucumba ao resto de corpo
a sobra de cheiro
que a candura dos ventos deixou.


(sidney machado e diego siqueira)


queria aprender aquela letra em inglês
era cada letra linda
as melhores músicas americanas
eram justamente aquelas do final
da década de sessenta
aos primeiros anos da década de setenta
os sentimentos e revoltas estavam
à flor das guerras
em cada metáfora, em cada jovem que saia ou fugia de casa
e a poesia era nua
e sangrava... e sangrava... e sangrava...


quarta-feira, 22 de novembro de 2017





têm pessoas que veem as
cores no som
um barulho de caminhada
pode ser marrom
um arranhado de unha
pode ser branco
no olhar da moça
uma algazarra é cinza
e laranja
como os olhos daquela 
criança
rosa e limão é a tarde,
que nem o cinza na cara da
cidade é capaz de borrar.