terça-feira, 10 de julho de 2018





um grande artista

tu, que nasceste no catete, em 1908,
e levado aos 9 para laranjeiras.
tu, que a partir dos 11 passarias a viver
quase definitivamente no morro da mangueira.
tu, que desde criança participavas
das festas de rua tocando cavaquinho
que aprendera com o pai.
tu, que só terminaste o primário
e aos 15 deixaste a escola
após a morte da mãe,
 e começaste tua vida de boêmio.
tu, que já foste tipógrafo e também pedreiro,
onde recebera teu apelido
devido ao fato de sempre usar chapéu
para que não sujaste a cabeça.
tu, que em 1925, junto com teu grande amigo
carlos cachaça, entre outros, fundara
o bloco dos arengueiros,
que depois ampliado e fundido com outros
já existentes no morro,
daria vida a segunda escola de samba carioca, em 1928.
tu, que escolheste o nome
e as cores verde e rosa
da estação primeira.
para o primeiro desfile foi escolhido teu samba.
 tu, que só foste conhecido fora da mangueira
em 1931, quando mario reis subiu o morro
para comprar uma música,
que acabou sendo gravada por francisco alves.
tu, que fizeste parceria até com noel.
tu, que já foste gravado por carmem miranda,
sílvio caldas, araci de almeida, etc.
tu, que junto novamente com carlos cachaça
compôs uma samba com o qual a mangueira
foi campeã pela primeira vez.  
tu, que chegaste no rádio e junto
com paulo da portela
criaste o programa “a voz do morro”, em 1940.
tu, que quase na mesma época sumiste
e alguns até pensaram que morreste.
compuseram até sambas em tua homenagem.  
tu, que com carlos cachaça, em 1948,
ganhaste mais um carnaval.
tu, que só foste redescoberto fora do morro em 1955,
quando sérgio porto o encontrou lavando carros
numa garagem em Ipanema.
nesta época também fazias bico como vigia.
tu, que foste levado para cantar na
mayrink veiga  e depois começaste a trabalhar
no diário carioca.
tu, que casaste com eusébia silva do nascimento.
com a mesma fundaste um restaurante
na rua da carioca, em 1964.
pena ter durado tão pouco.
tu, que só em 1974, aos 66 anos,
gravaste teu primeiro lp,
com o qual  ganhaste vários prêmios.
ainda gravaria mais três.
tu, que viraste pétala em 1980.
tu, e somente tu, cartola.
  
(sidney machado)

segunda-feira, 9 de julho de 2018





sobre a beleza
dona clara brinda 
a função cultural das privadas.





ela não se achava ciumenta
nem possessiva
nem dramática 
até que numa noite qualquer 
foi trocada por duas garrafas
de cerveja
e outra de cachaça.

segunda-feira, 25 de junho de 2018





uma certa nina

nina se achava feia,
uma adolescente feia,
sem príncipe ou sapo.
talvez devido ao fato
do irmão mais velho
tirar sarro dela
a chamando de bofrancineide,
antiga personagem do jô soares
que queria fazer parte
de um corpo de balé
fosse como fosse.
porém nunca conseguia
por ser gorda.
nina era esbelta, mas
quando se comparava
com a irmã magrela
se via enorme.
e engordou mesmo.
a sorte é que ela
tinha outro irmão
que a entendia,
além de ser gente fina.
ele virou seu ídolo,
o herói de um mundo que ruía.
ela passou a se vestir como ele
e a usar o mesmo perfume,
entre outras coisas.
isso durou vários meses.
sua mãe reclamava por ela
não ter atitude própria
e de assumir a personalidade
do irmão.
nina nem ouvia e continuava.
a ilusão acabou quando ela o viu
usando certo tipo de droga
num carnaval qualquer,
em saquarema.
foi um baque para uma menina
de apenas 14 anos.
por um lado foi bom.
nina entendeu que ninguém
era perfeito
e o referencial só podia estar nela.
e que o irmão era até bacana;
nada além disso.
e o mais velho,
um pé no saco. e pronto.


segunda-feira, 11 de junho de 2018






poema a partir de uma notícia antiga de jornal
              
eles formavam um casal até que bonito.
no entanto, estavam com problemas
no casamento.
decidiram flertar com outras pessoas
na internet. adotaram pseudônimos
e em seus perfis não havia fotos.
por acaso, acabaram trocando mensagens
e se apaixonaram um pelo outro.
resolveram se encontrar,
e descobriram quem eram.
o casal decidiu se matar.

segunda-feira, 4 de junho de 2018






seu artigo até troca passos
com meu substantivo
já seu verbo destoa
da minha interjeição
seu pronome até poderia
ser um numeral
sua conjunção encerra
o meu mais pleno adjetivo
e sua preposição
é uma extensão
desse advérbio
que eu chamo de vida.

segunda-feira, 28 de maio de 2018





plano geral

a moça loira da barca
se olha no espelho
retoca o batom, os cílios
a moça da direita
apenas olha pra ponte
o casal de trás
fala sobre política
o homem da esquerda
permanece sério
mais à frente
um copo vazio
me absorve por completo.


(sidney machado)