sexta-feira, 1 de março de 2019






o pai dos loucos ou o apóstolo das almas ébrias
em pala, território de sonho
e devaneios picarescos,
havia um sábio que habitava
numa escadaria de azulejos encantados;
seu nome é esperandelo.
ele vivia com seu amigo quincas borba,

uma bengala falante e protetora.

esperandelo era achegado dos bêbados & loucos,
vagabundos & espíritos da noite.
muitos o procuravam em busca de oráculos,
desde aqueles à beira do suicídio
até as criaturas aparentemente sãs
ou solitárias de si.

para os bandoleiros locais,
ele só podia ser um tira disfarçado
ou um fanfarrão metido à besta.
(por que não?)
para os tiras,
só podia ter parte
com os bandoleiros
ou então com o próprio demo.
(o que não duvido)
no entanto, como havia virado folclore,
todos passaram a simpatizar
com esse personagem de nariz de palhaço
que interagia com qualquer pessoa.

esperandelo presenciou muitas coisas boas & ruins;
fez muitos amigos;
foi boa companhia & refém;
ídolo & mártir para uns,
palhaço & idealista para outros;
desaprendeu & aprendeu de tudo.
o verdadeiro pai dos loucos

e apóstolo das almas ébrias
por anos e décadas em pala.




poema oriental ou proposta para uma h.q. em pb só com imagens
vilipendiado, o coitado  e pelo
melhor amigo , passou a andar
cheio de bolsas e solitário,
um louco de poucas falas
e de mínimos gestos.

na rua, sua nova morada,
sempre trajando a mesma vestimenta preta,
uns o chamavam de joão molambo,
outros de joão muamba.
não tinha amigos
e nem sequer falava com ninguém,
a não ser se falassem com ele.

passava a maior parte clara do dia
num espaço 
de solidão,
onde dormia e amparava-se no tempo.

numa especificidade crua e patética,
certa semana joão muamba
foi encontrado  morto
num boxe de banheiro
segurando um crucifixo.
seu rosto mais lembrava
um dia aberto e vazio.